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Resenha literária

 

Resenhista: Ivan Junqueira.

Livro: Arte do piano: compositores, obras e grandes intérpretes da música erudita, da arte popular brasileira e do jazz.

Autor: Sylvio Lago.

Gênero: Ensaio.

Editora: Algol Editora

Ano: 2007

arte do piano

 

Arte do piano: sabedoria e opulência

 

O piano incorporou-se em definitivo à nossa vida social durante a segunda metade do século XIX, quando chegou a tornar-se quase uma febre entre as jovens de família que o martelavam para o deleite dos pais e dos amigos. Em uma de suas crônicas do início do século passado, publicada sob o título de “Pianolatria” na revista Kosmos, Olavo Bilac observa: “O Rio de Janeiro é a cidade dos pianos. (...) Saí por aí afora, ide de bairro em bairro, de rua em rua, de casa em cada, — e não encontrareis uma só casa em que não haja um piano, pelo menos. Porque há casas que têm dois: um, de cauda, para as pessoas grandes, e outro, de meio armário, para as crianças principiantes.” E adiante comenta: “Admitida essa pianolatria carioca, não admira que o Rio de Janeiro seja o melhor mercado do mundo para os fabricantes de piano, e para os compositores de música fácil.” Mas não é desse piano, como tampouco de nenhuma “música fácil”, que nos ocuparemos aqui, e sim de uma obra monumental e indispensável àqueles que prezam a fina interpretação dos virtuosos do instrumento e do gênio dos compositores que a ele se consagraram desde o século XVIII: Arte do Piano, do ensaísta e musicólogo Sylvio Lago.

Há algo de beneditino e miraculoso no trabalho do autor, que nos oferece não apenas um gigantesco painel da arte do piano, mas também um punhado de análises nas quais aflora uma aguda sensibilidade e um ciclópico conhecimento do assunto. Ficamos assim sabendo, nos primeiros capítulos da obra, de todos os antecedentes que preludiam o advento do piano como hoje o conhecemos, ou seja, aquele pianoforte que começou a ser fabricado pelo italiano Bartolomeu Cristofori a partir de 1698 e que foi desenvolvido na Alemanha por Gottfried Silbermann em torno de 1776, até chegar ao chamado hammerklavier (piano com martelos), o qual, com o crescente abandono do cravo, foi adotado por Beethoven, Schubert, Mendelssohn e Weber no decorrer do século XIX. Cumpre lembrarmos aqui, todavia — e assim também o faz Sylvio Lago —, que o piano jamais existiria sem as contribuições técnicas do órgão, do clavicórdio, da espineta e, sobretudo, do cravo, cuja produção foi depois incorporada à literatura pianística. Seria ocioso recordar que foi para o cravo que escreveram compositores tão seminais quanto Couperin, Clérambault, Rameau, Marchand, Haendel e, acima de todos, Bach, que, com O cravo bem temperado, A arte da fuga e as Variações Goldberg, instaura o supremo cânone da música clássica ocidental.

O piano alcança extraordinário desenvolvimento artístico durante o século XVIII graças às partituras de Carl Philip Emanuel Bach, o segundo filho de Bach, bem como às de Haydn e Mozart, com o qual, como salienta Sylvio Lago, o piano “incorpora-se definitivamente às formas concertantes abrindo um novo caminho para as transformações que ocorrerão do ponto de vista das relações do instrumento e da orquestra, da profundidade da expressão, do maior equilíbrio e o rigor da forma”. Mas será apenas com Beethoven, em fins do século XVIII e inícios do século XIX, que se poderia falar de uma nova linguagem pianística, já antecipada, é bom que se diga, por Clementi. E na origem dessa nova linguagem, que coincide com os recentes aperfeiçoamentos mecânicos logrados pelo piano, está a Sonata Hammerklavier, op. 106, a partir da qual, como sustenta Sylvio Lago, “as composições mudam de conteúdo emocional, penetradas pela introspecção, pelas inovações e pelos arrojos de uma nova linguagem pianística”.

O legado pianístico de Beethoven marca profundamente tudo o que se escreveu para o instrumento durante o Romantismo, como o atestam as obras de Field, Schubert, Mendelssohn, Schumann, Brahms, Tchaikovski, Franck e Saint-Saëns, às quais devem ser acrescentadas as dos grandes compositores-pianistas, como Liszt e Chopin. Convém ainda, como lembra o autor da Arte do Piano, não esquecermos a pródiga contribuição dos representantes dos nacionalismos europeus, como o russo Balakirev, o norueguês Grieg e o espanhol Albéniz, e mais os dois grandes russos do Romantismo tardio: Rachmaninov e Medtner. Ao lado destes, cumpre registrar aqui o papel que desempenharam alguns notáveis pianistas da época, em particular Ferruccio Busoni, que, como sublinha Sylvio Lago, “foi um dos pianistas que mais se preocuparam com a reflexão a respeito das questões interpretativas apresentadas pelo compositor”. Busoni constitui, por assim dizer, um divisor de águas nas práticas pianísticas na passagem do século XIX para o século XX, “expurgando da execução todo maneirismo remanescente dos tempos românticos”.

A arte pianística da segunda metade do século XIX já reflete, aliás, a dissolução da doutrina romântica, o que ocorre, segundo Sylvio Lago, graças às “transformações com significação estética e formal diversas”. Pondera ainda o ensaísta que essa dissolução “caracteriza-se pelas inovações harmônicas, sobretudo nos cromatismos e novos vocabulários da harmonia, complexos e pessoais, com a música apresentando sonoridades únicas e inusitadas, sobretudo nos tipos de acorde que exploram intervalos incomuns e inovadoras combinações sonoras”. Percebe-se assim que a música romântica dá origem a obras pianísticas estritamente poético-literárias que não definem o seu caráter programático. É a hora de compositores como Fauré, Debussy, Satie, Scriabin e Ravel, que revelam uma aguda compreensão dos destinos da música do século XX, concebendo, como adverte Sylvio Lago, certas particularidades da linguagem musical que irão alcançar uma repercussão tão vasta como poucas vezes se viu na evolução dos estilos e estéticas da história da música.

A leitura do capítulo “O piano no século XX” é decisiva para a compreensão cabal do esforço de pesquisa do autor da Arte do Piano não só pela profusa galáxia de nomes de pianistas que nos encantaram com suas admiráveis execuções, mas também pelas oportunas análises que alinhava a propósito da crucial distinção que se deve fazer entre o virtuose do passado e o intérprete da atualidade. Diz ele: “O virtuose continuará a existir, não mais como o executante que busca o feito e o deslumbramento, e sim como o intérprete que procura a recriação pela fidelidade ao estilo e a correta estruturação técnica da obra musical”. Paralelamente à contribuição desses pianistas é que floresce o talento de alguns grandes compositores de nosso tempo, como Schönberg, Stravinski, Berg, Bartók, Prokofiev, Poulenc, Shostakovich, Messiaen e Boulez, aos quais Sylvio Lago dedica breves e argutos comentários, sempre acompanhados da citação das obras principais desses compositores e de seus intérpretes mais consagrados, os quais são contemplados com verbetes individuais impecáveis seja pela análise técnica, seja por suas especialidades ou preferências musicais, seja, ainda, pelo rendimento pianístico que alcançam quando interpretam este ou aquele compositor.

Mas o volume não para por aí, pois há ainda substanciosos e abrangentes capítulos dedicados à história do piano no Brasil, aos pianistas mais representativos do jazz e aos métodos de ensino do instrumento no país, além de uma bem selecionada bibliografia. Enfim, tem aí leitor a sua Bíblia no que toca aos mistérios e à técnica da arte do piano, esmiuçados com a paixão e a competência de quem sabe o que diz, mas sem nenhum preconceito relativamente a este ou àquele compositor, a esta ou àquela vertente musical, seja a clássica, seja a popular. Sylvio Lago informa e, quando é o caso, analisa. E analisa sempre bem. Não se trata, graças a Deus, de uma obra concebida estritamente para especialistas ou musicólogos, mas sim, como afirma o próprio autor, de um livro que “foi escrito pensando nos que se relacionam com a música pelo prazer da contemplação sonora e nos que estão nos estágios mais aprofundados da apreciação musical”. Por isto será lido e estimado. Com ele, Sylvio Lago presta uma contribuição inestimável ao conhecimento (e à fruição) musical de todos nós. E aqui seria o caso de repetir o que escreve Per Johns nas últimas linhas de seu esplêndido prefácio: “Pedir mais de um livro sobre a música é pedir o impossível.”

 
 

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