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Prata da casa

(Seção destinada à divulgação de textos de Acadêmicos Titulares da ANL).

Nesta edição estamos publicando textos dos academicos

CecchettiPaulo Roberto Cecchetti

HilarioHilário Francisconi.



Prata da casa

Paulo Roberto Cecchetti 

cecchettipaulo@gmail.com

ICARAÍ ADOECEU? - de PRCecchetti

remedios

No quadrilátero compreendido entre as ruas Miguel de Frias/Comendador Queiroz e Moreira César/Tavares de 

Macedo, fiz um esforço de memória e contei hoje, pela manhã, completamente estarrecido: quatorze farmácias! E umas de frente para outras!Teriam os moradores do bairro de Icaraí adoecido???
Bem sei que, na qualidade de vida ora existente, a longevidade tem avançado ao ponto de perceber o ir e vir das senhorinhas curtindo vitrines, e de senhores sentados nos bancos das esquinas contando reminiscências de uma Icaraí saudosa...
Não me surpreendo em minhas caminhadas matinais com o número avançado de cadeiras de rodas, algumas motorizadas, circulando no âmago desse quadrilátero entre carrinhos de bebês que mal conhecem desse novo trajeto.
Surpreso diante de tantas inaugurações da grife farmacopeia, indago: Icaraí adoeceu? Ou o marketing dos genéricos tornou-se ato frenético para a invasão às prateleiras repletas de pílulas da vida longa?! Evasivas invasões que persistem em descaracterizar o bairro. Esbarro nas prateleiras dos comprimidos encompridando nossos passos para a eternidade.

 

Hilário Francisconi

H. Francisconi (francisprov@hotmail.com)

O Labirinto de espelhos

 

Entediado e invariavelmente portador de pouquíssimas palavras, deixou a mesa à qual bebia uma cerveja em reunião com seus poucos amigos e rumou, em passos lentos, até o toalete.

Havia muito, tudo o enfastiava, desde a mesmice da vida jovem ao marasmo do cotidiano adulto. Verdade é que desejara, até os seus quarenta anos, ser outro homem: gregário, acessível, folgazão, enfim, sociável. Os amigos não reclamavam outra sua atitude, embora esse apaziguamento não o tranquilizasse. Em vias desse estado melancólico, era um homem soturno.

Empurrou as lâminas da portinhola de acesso ao lavatório e sequer ouviu o ranger, atrás de si, das abas que procuravam o seu estado de inércia. E entrou.

De imediato, não conseguiu assimilar, em sã consciência, a inexplicável quantidade de espelhos que se reproduziam indefinidamente nas paredes, o que resultava em uma sucessão interminável de seu reflexo, quer à sua frente ou aos lados.  De qualquer modo, a primeira e impactante impressão fora, sem dúvida, a de ver-se perdido no miolo de um fantasmagórico labirinto.

Contudo, o que mais o aterrorizou levando-o ao limite com a loucura foi o haver notado, tomado de quase incurável espanto, que o seu reflexo naqueles inusitados e infinitos espelhos não produzia, como fosse de esperar, a sua fisionomia. No lugar e em cada um deles havia outro homem. E não apenas isto, mas, em cada reflexo, um homem diferente...

(Por quanto tempo manteve-se estático no interior da toalete não se soube. O estado catatônico que é impingido ao ser humano, em situações de extremo terror, costuma levá-lo a cronologias desconhecidas pela ciência).

Ao deixar aquele extraordinário recinto, retornou à mesa onde ainda se encontravam os seus amigos e ocupou a cadeira vaga.

Dizem, até hoje, não se saber explicar o paradeiro do homem que deixara a sua cerveja sobre a mesa e dirigira-se à toalete para jamais voltar. Da mesma forma, o que levara aquele sujeito estranho sentar-se em uma cadeira reservada a poucos amigos, ainda que por mais jurasse esse homem, como tivesse de fato jurado por toda a vida, que os conhecia desde a juventude...


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