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Prata da casa

(Seção destinada à divulgação de textos de Acadêmicos Titulares da ANL).

Nesta edição estamos publicando textos dos academicos

CecchettiPaulo Roberto Cecchetti

HilarioHilário Francisconi.

GILSON ROLINWilliam Douglas


Prata da casa

Paulo Roberto Cecchetti 

cecchettipaulo@gmail.com

UM BAIRRO NA TELA DA TEVÊ - de Paulo Roberto Cecchetti

(para Glória Peres)

Também conheci a Ponta D'Areia! Meus tios moravam num sobrado, quase na entrada do Estaleiro que abrigava o Palacete da Condessa Pereira Carneiro! Morava em Santa Rosa, na Rua Santos Moreira, numa Vila chamada São Patrício! Pegava o bonde e, com meus pais e irmãos, íamos até às barcas para baldear pro bonde da Ponta D'Areia. Chegávamos no sobrado dos tios Emílio e Elita, trocávamos a roupa de domingo e, de calção, nos atirávamos do flutuante nas águas límpidas desse recanto português... Lá se vai a memória do aconchego e da tranquilidade... Niterói papa-goiaba, do trampolim, das domingueiras, das praças sem grades, dos cordiais agradecimentos àqueles que - no passado - nos deram uma identidade. Ponta D'Areia, grãos de saudades!

Hilário Francisconi

H. Francisconi (francisprov@hotmail.com)

Sol e som

A cena que inaugura o drama, abertas as cortinas da vida, estampa dois jovens músicos na calçada do Campo de São Bento, em Icaraí. Um deles faz deslizar os seus ágeis dedos sobre as teclas de um órgão eletrônico, enquanto o outro, também concentrado, prende sob o queixo um violino que emana de suas cordas uma melodia de John Lennon. A música chama-se Imagine, e já começo a imaginar um registro para esta dramática peça.

Há um céu de azul infinito sobre as nossas cabeças porque o sol, neste dia de Nossa Senhora Aparecida de 2016, vem banhar o povo com a sua glória de nascer para todos. E eles lá estão, os dois jovens, e eu não sei se com o fim de apenas louvarem o dia com o seu arranjo musical ou, na contramão dos deuses, no intuito de somarem, no interior do estojo de um dos instrumentos, uns trocados a mais para tocar a vida...

A composição de Lennon, em sua parte poética, nos pede que imaginássemos todas as pessoas a viver o presente, e ainda que supuséssemos o mundo sem países, sem motivos para matar ou morrer, sem religiões e que seguíssemos a vida, enfim, em paz.

Acontece que esta peça encenada pelos dois jovens em um palco natural não trata, em seu roteiro, da filosofia de John Lennon, e sim da biografia, embora destacada por um flash, de dois brasileiros em uma calçada pública em busca de sua sobrevivência no centro de uma batalha urbana.

Enquanto rabisco alguns registros, os trocados caem no interior do estojo dos rapazes, bem à sua frente, uns mais generosos que outros, porém todos provenientes de mãos dadivosas.

A esta altura, você, caro leitor, pode estar imaginando que eu seja um sonhador, aliás, da maneira como consta da letra de Imagine, mas, não! Sou mesmo um realista, com toda a “realeza” de que dispõem as letras deste vocábulo aspeado. Os dois rapazes na calçada, a empunharem os seus instrumentos de corda e eletrônico, vivem, hoje, uma realidade que se repete desde a formação das sociedades: a das posses! 

À frente dos dois e a plagiar Lennon, fico a imaginar que não mais há posses, nem ganâncias ou fome, e que em seu lugar há uma irmandade entre os homens a partilhar todo o mundo. E que o mundo, agora, é um só...

William Douglas

**William Douglas é juiz federal, professor universitário, palestrante e autor de mais de 20 obras, dentre elas o best-seller “Como passar em provas e concursos” – www.williamdouglas.com.br

A dobradura dos lenços

 Há momentos em que o velho se revela em mim, e isto acontece cada vez mais. Antigamente, eu era o mais novo nas conversas e mesas... o que já não é tão comum. Já dei aula para juízes, professores, que passaram por mim há alguns anos e, agora,  sentam-se comigo. Anoto: uma honra gratificante. E nem falo das palestras sobre concursos, onde cada vez mais recebo a "visita" de concurseiros já aprovados, que vão apenas levar o abraço e a notícia, sempre alvissareira, de seus merecidos sucessos. Sou amigo dos pais de vários profissionais com que lido. Bem, fui amigo primeiro dos pais, entende?

Em um relance mais difícil, recebo do oftalmologista novos bilhetes, com números mais altos, que me obrigam a fazer novas lentes. Curiosamente, quando começo a entender um pouco mais do mundo pelos olhos da emoção, os olhos físicos vão ficando mais frágeis.

Há alguns anos disse que possuía todas as respostas para o mundo no meu bolso, que só me faltava achar os botões da calça. Sigo tentando achar os botões, estou certo, mais uns duzentos ou trezentos anos, e eu finalmente entenderei tudo: o amor, os filhos, a alma humana, esse meu maior desafio.

Sobre envelhecer, minha mulher, sete anos mais jovem, me lembra disso algumas vezes. Ela insiste em que eu abandone os lenços de tecido, trocando-os pelos de papel – muito mais práticos, higiênicos, modernos etc.

Curiosamente, a habilidade dos lenços e sua descartabilidade não me dizem coisa alguma. Explico. Minha mãe, já ida, não me deixava sair sem um lenço limpo, que em sua mente materna, julgava indispensável para um homem correto. Ela ensinou coisas mais sérias, como não sair de casa nem fazer refeição sem camisa, sobre ser honesto, tratar bem as pessoas e a não fechar as portas, pois o mundo é pequeno. Mas também tinha essas coisas pequenas, ou aparentemente pequenas, como achar que uma boa esposa devia tocar piano e eu tinha que ter sempre um lenço limpo no bolso. Havia, também, algumas coisas ruins, como não se cuidar e morrer de câncer.

Mas falarei apenas dos lenços. Eu não saía de casa sem um deles, e era um presente comum eu receber dela outra caixa. Logo, enquanto houver lenços de pano eu desprezarei os de papel, porque, de alguma forma muito louca, quando os tenho no bolso, tenho um pouco da mãe partida, e quando o assôo é como se os próprios dedos de minha mãe tocassem a ponta de meu nariz, quando me seco é como se a sua mão passasse novamente pela minha face.

E, não tenham dúvidas, qualquer homem daria seu braço direito para ser tocado, novamente, na face pela mãe já morta. Por isso mesmo, no livro A última carta do tenente, é que alerto: todos os que não estiverem com a mãe morta ou no CTI, corram,  ainda é tempo!

Sim, eu visitei, liguei e conversei com ela menos do que podia e devia, e o concurso foi parte disso. Imaturo, jovem, como só uma mãe pode entender, cuidei mais da carreira do que era sensato. E, agora, o que posso fazer é consolar-me pelos acertos que de fato tive e alertar os amigos: liguem, visitem, passeiem, tolerem, riam, façam agrados e vontades. Eu os invejo, e invejarei cada dia, bem como alertarei a todos que estiverem com a mãe viva: corram, ainda é tempo!

Mas falemos dos lenços.

Um dia destes recebi da gaveta um lencinho pequeno, sensivelmente menor que de costume, um quadradinho. Protestei com a esposa por terem trocados meus lenços. A dimensão normal deles é de  10 x  10  cm, estes que peguei estavam com 7 x 7 cm.

Não é coisa de velho, é que abertos os primeiros se encaixam no meu rosto, já que não sou lá muito pequeno, e o novo modelo não era tão bom para cobrir meu nariz.

A esposa, paciente, alertou-me que era o mesmo lenço, que apenas tinha sido dobrado de forma diferente. Imediatamente, meu lado cientista e pesquisador foi fazer as conferências. Percebi que realmente ele era mais "gordinho" que o modelo tradicional, aquele que além de útil, me lembra a senhora minha mãe. Suspeitei, então, estar passando ao largo de uma verdade essencial e desejei bebê-la.

"Verdade essencial" é qualquer grande conclusão, aprendizado, lição ou frase que você pode assimilar na vida. Estão por aí, nos livros, filmes, peças de teatro, nas conversas com sábios, idosos e crianças, ou, por vezes, em situações vividas, ou escondidas numa paisagem no horizonte. Sou um caçador delas. O livro Como passar em Provas e Concursos, por exemplo, é uma coleção de verdades essenciais sobre como passar em provas e concursos; o Última carta, uma coleção de verdades essenciais sobre o sentido da vida; o A Maratona da Vida, sobre as corridas da vida e da superação pessoal, e assim por diante.

Hoje, já concluí que depois de escrever para mim, aos outros, às editoras etc., finalmente escrevo aos meus filhos, desejando que eles – caso leiam meus livros – encontrem mais facilmente algumas das verdades essenciais que demorei e sofri muito para, enfim, apreender.

A verdade essencial escondida no lenço é que, me corrijam se estiver errado, conforme nos dobramos, podemos ser maiores ou menores. Nosso tamanho é influenciado pela forma como nos dobramos. E, curiosamente, daí também deriva um segundo enunciado filosofal: de um modo ou de outro, os lenços continuam tendo o mesmo tamanho quando se desdobram.

Começarei pela segunda observação: todos os homens têm valor igual. Como aprendi na Faculdade de Filosofia, UFRJ, o homem que souber todas as coisas não saberá o que é ser ignorante. O homem repleto de bens e propriedades não tem a tranqüilidade do pescador humilde; o grande executivo pode não ter a vida pausada do porteiro. Não existe nada de graça: todas as coisas possuem seu preço e seu respectivo ônus.

No tocante ao meu campo, o servidor público não poderá ter seu iate, mas, em compensação, tem um horário de trabalho definido e uma qualidade de vida irrealizável para a maior parte dos empresários e executivos. Eu reduzi minhas palestras à metade para ficar com meus filhos, reduzindo a velocidade de expansão profissional em troca de uma outra expansão, não mensurável pelas mesmas vias. São apenas escolhas. Durante muito tempo viajei e curti menos os dias em trocas de conhecimento para hoje, aprovado nos concursos, fazer estas coisas em outro patamar de vida. São apenas escolhas.

Mas, no final, todos os homens valem a mesma coisa. Como diz a Declaração Universal dos Direitos do Homem, todos nascemos iguais em dignidade e direitos, e devemos nos comportar uns em relação aos outros com espírito de fraternidade.

O sábio não pode valer mais do que o tolo, nem o abastado mais que o miserável. O bondoso não é, e isso me assusta, mais importante que o canalha, e suspeito que todos tenhamos mesmo o bondoso e o canalha, o malvado e o filantropo, escondidos em nossas carnes.

Mas falemos dos lenços.

Há alguns homens que não se dobram aos estudos, não se dobram à disciplina, não se dobram aos movimentos necessários para vencer os próprios obstáculos. São pessoas que serão pequenas (ou menores do que poderiam).

Mas quem se dobra mais não fica menor? Não. Depende do ângulo que você olha: o mais dobrado, visto de lado, é mais alto. A questão não é se dobrar ou não, mas a forma como se dobra e o ângulo de visão escolhido.

Sempre existirão obstáculos entre um homem e seu sonho. Mas, como já foi dito: "obstáculos são aquelas coisas assustadoras que você vê quando deixa de focar os seus sonhos". Algumas pessoas se dobram, se curvam mesmo, para pegar o que desejam. Outras não.

Lembro de minha adolescência e primeira juventude, quando era ridicularizado pelos que me consideravam bobo e tolo de estudar tanto, de acreditar tanto, de perder tanto. Eu apenas estava me dobrando como um lenço que desejava ser grande. Dobrar-se humildemente, dobrar-se com paciência e perseverança, dobrar-se ao som do sonho. E a vida e o tempo me recompensaram pelos meus esforços. A vida sempre recompensa.

Não me dobrei tanto quanto devia aos cuidados com a mãe, nem com a saúde, e fiquei menor, tendo que pagar um preço sobre isso. Felizmente, cuidei alguma coisa de minha genitora, o que me consola, e estou vivo ainda, o que me permite recuperar a saúde que me for possível.

Há quem se dobre e faça reverência à preguiça, à omissão, à apatia, ao medo do fracasso ou aos outros temores naturais de qualquer empreitada, e ficam menores, menores mesmo, comparados ao que poderiam. Como dizia Renato Russo, muitos temores nascem do cansaço ou da solidão. Mas se o cansaço é de estudar, e a solidão é por estar estudando, daí também nascem plantas boas: conhecimento, competência, aprovação, sucesso.

Volto ao tema: assim como todos valemos intrinsecamente por sermos humanos, assim como sempre temos escolhas enquanto estamos respirando, todos nós, homens e lenços, nos dobramos. Não há como não nos dobrarmos. Como disse o filósofo Rocky Balboa, a quem, junto com Ferris Bueller, Forrest Gump e Rod Tidwell, homenageio em um de meus livros, o fato é que "ninguém bate mais forte do que a vida". É vero. Ninguém bate mais forte do que ela... e, ao mesmo tempo, ela é tudo o que nós temos, e é bonita. Um espetáculo sem ensaio, irresistível e que estréia todos os dias.

Logo, já que a vida é irrecusável, você terá que se dobrar como qualquer lenço. Mas pode escolher a que se dobrar, como e quanto. E dessas suas decisões sairá desenhado e definido o seu tamanho. E, sempre que quiser, você poderá se desdobrar e fazer um outro desenho.

A vida é um lenço, flexível, que você tem no seu bolso.

 

Preço de mulher

De William Douglas

 

Mulher, eu nunca entendi teu preço,

eu nunca compreendi teu jeito.

Tantas me deram coisas por coisas em troca,

mas sempre me deste coisas por nada.

Tantas me deram carinho por carinho,

afeto por afeto,

outras, piores, afeto por poder,

afeto por dinheiro.

Mas tu me tens dado tudo tão barato,

que não te compreendo o preço.

Mulher, tantas negociam tanto,

Aliás, todas negociam este trato,

exigem fidelidade, atenção, cessões mútuas.

Mas tu, mulher, tens me dado tudo de graça.

Não fazes exigências, não cobras nada,

te contentas com tão pouco.

Um pouco de atenção, umas poucas palavras,

te contentas com tão pouco que

por vezes duvido de tua sanidade.

E, mais, sacrificas tudo.

Outras negam um prato quente, uma bainha,

todas têm mil exigências,

mas tu, generosamente, apenas queres minha presença,

e sequer a teu lado.

Parece que te contentas com minha existência,

Com o fato de eu estar vivo e bem, obrigado.

E é este teu preço tão barato que não me convence,

que não se explica,

eu não entender este teu preço, mãe.

justamente tu, que és tão cara,

e eu barato, e fazes tudo por nada.

 


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