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Pensarte

(Seção destinada à publicação de artigos e ensaios sobre literatura, cinema, teatro, dança, música, fotografia, artes plásticas)


lena 

Cristiana Seixas

Psicóloga clínica, biblioterapeuta, contadora de histórias, facilitadora de programas de educação e desenvolvimento, escritora, mediadora de eventos literários. Pós-graduanda em Arteterapia. Biblioterapeuta voluntária na Associação dos Amigos da Mama de Niterói-RJ (Adama), associação que apoia mulheres vítimas de câncer de mama. Mais informações no site www.cristianaseixas.com.

 

Literatura e saúde

 

Janne Achterberg, no livro A imaginação na cura, lembra que o médico e a Medicina tiveram sua origem nos curandeiros, xamãs e pajés nas comunidades arcaicas.  A doença era interpretada como um sinal de que a alma havia se desprendido do corpo. Assim sendo, os esforços e saberes do curandeiro não eram direcionados à doença e sim a resgatar a alma da pessoa e, com isso, fortalecer o próprio poder pessoal do doente para resistir e reagir à enfermidade.

Todos nós sabemos, por experiência e observação, que o estado emocional muito contribui para nossa saúde. Tristezas profundas abalam nossos sistemas de defesa e as portas se abrem para as doenças. Por outro lado, se nosso nível de liberdade, felicidade e dignidade está alto, somos capazes de atravessar e resistir às tormentas que o cotidiano nos expõe.

Atualmente, com raras exceções, os hospitais direcionam sua atenção e esforços para a saúde física. O diagnóstico, os exames, os tratamentos e medicamentos são focalizados no corpo. As dimensões emocionais, mentais, espirituais, sociais e culturais ficam negligenciadas ou delegadas a um segundo plano. Tal quadro é agravado pela escassez de infraestrutura e recursos básicos para atender às demandas de uma sociedade adoecida.

Pessoas que levam a Literatura a ambientes de saúde são testemunhas diárias da capacidade de transmutar a energia do lugar através da imaginação. Além da doença, existe um ser com recursos de cura ainda não acessados. Há partes saudáveis atrofiadas por falta de espaço ou permissão de se manifestarem.

Um amigo, o Rafael Ceccon, durante anos, foi instrutor de remo para um grupo de mutilados (pessoas sem um braço ou uma perna). Fiquei imaginando como deve ser difícil manter o equilíbrio ao remar sem uma parte do corpo e ao questioná-lo a respeito, ele respondeu: “Aqui a gente trabalha com o que tem!” Pareceu-me uma regra básica: não perder tempo com a impotência do que não está disponível e encarar a vida e suas possibilidades com os recursos disponíveis. E o que está disponível para uma criança, adolescente, adulto ou idoso, num espaço de saúde? A imaginação! Ela, porém, pode ser utilizada destrutiva ou construtivamente. Pode fazer adoecer ou favorecer o cuidado e a cura. Shakespeare já afirmava: “Não há nada de bom ou ruim sem o pensamento que o faz assim”; e, ainda, “Somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos”. Diante da certeza da finitude, surge a angústia que gera histórias terríveis contadas pelo medo. Neste contexto, trazer a literatura representa uma via alternativa para alimentar a imaginação construtiva. Ela segue pelo caminho da maior das liberdades, a interior.

Uma história que bem evidencia essa potência é contada por Mia Couto, no livro Se Obama fosse africano: perguntado como conseguiu fazer versos cheios de ternura numa prisão tão desumana, o chinês Ho Chin Min respondeu: “Eu desvalorizei as paredes”. Oscar Niemeyer, em plena Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), nos momentos finais, compôs um samba, com a ajuda de um enfermeiro: “Assim vou eu, tranquilo da vida/à espera da noite já solta no ar/com o manto de estrela com que anuncia/e se ilumina nas águas do mar.”

Que capacidade é esta de ser maior que sua enfermidade? O riso traz incomensuráveis benefícios e fortalece o sistema imunológico. Ampliar o repertório do imaginário significa criar caminhos alternativos e expandir a visão e leitura de mundo. Uma via aberta para reinventar-se. E o que é a doença senão uma mensagem do corpo de que algo se tornou insustentável? Um pedido de mudança, de transformações.

A leitura também promove viagens, como disse Amós Oz: “A literatura é uma espécie de turismo onde é possível desviar dos lugares comuns e entrar nas casas, nos cantos mais escondidos, na mente das pessoas e, assim, com curiosidade pela diversidade, ir ampliando o mundo.”. É um recurso inesgotável para quem não pode sair de uma cama, de uma UTI. A liberdade é o maior e melhor tratamento, como constatou Nise da Silveira, psiquiatra que revolucionou o tratamento da loucura.

Pessoas que levam a literatura para enfermos atuam, neste sentido, como agentes de saúde, num cuidado direcionado à mente, às emoções, ao afeto, ao resgate da alegria e desenvolvimentos possíveis, mesmo nos casos em que não há mais cura para o corpo. Da próxima vez que for visitar um amigo acamado, leve uma leitura nutritiva para ser possível criar mobilidade na imobilidade.




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