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Pensarte

(Seção destinada à publicação de artigos e ensaios sobre literatura, cinema, teatro, dança, música, fotografia, artes plásticas)

carlos rosa

Organização: Carlos Rosa

carlosjrmoreira@globo.com

denise lopes

Biografia:
Denise Lopes Nogueira, nasceu na cidade do RJ. Arquiteta e Urbanista, Pós-Graduada em Restauro Arquitetônico e História da Arte Sacra.

Observa as casas antigas como personagens ilustres da sua cidade e costuma parar para ouvir suas histórias. Participou da antologia "Brumas e Brisas", em 2017 com o conto "O moço da palhinha". Dedica-se atualmente à alquimia entre arquitetura e poesia.

Atua também como mediadora de leitura e contadora de histórias em hospital infantil.

 

 

RAINHA FALADEIRA

Denise Lopes Nogueira

 

Hoje acordei com vontade de conversar, de falar sobre o que vivi neste pedacinho de rua.  Meus vizinhos mais jovens se acomodam como podem para escutar as histórias que tenho para contar. Estão presos como raízes, assim como eu, mas viajam pra bem longe como pipas no ar.

Vi muita gente boa chegar e partir, sempre cruzando pela minha porta. Passou Austregésilo de Athayde, Cecília Meireles, Alceu Amoroso Lima, Manuel Bandeira entre tantos outros notáveis, mas foi Machado de Assis, o velho bruxo que marcou este lugar. Quando cheguei, ele já morava neste bairro sossegado e circulava pelo bonde das águas férreas. As lavadeiras não desfrutavam do mesmo luxo e engrossavam as pernas no leva e trás subindo a ladeira. Viviam do troco que ganhavam transformando o encardido e mau odor em brancura e perfume de anis. Chamavam o bairro de coradouro por isso.

Os grandes escritores e poetas circulavam por aqui e até a rainha vinha beber água da fonte, do outro lado da rua. Dizem que essa água era poderosa, dava viço e beleza aos que dela bebiam. Eu ainda nem tinha nascido, mas a rainha vinha de longe saborear a tal promessa. A bica acabou recebendo seu nome: Bica da rainha! Assim, também fui batizada, com seu título de nobreza. Com muito orgulho, me chamo Rainha!

Ao lado da bica, estão os sobrados gêmeos da família do Barão de Mamoré.  Num deles morou Portinari! O amigo Niemeyer projetou um ateliê delicado em ferro e vidro só para ele, ao gosto da época. De lá, vi sair o painel Tiradentes, a série Retirantes entre outras obras famosas. Agora a casa fechou a boca e os olhos, para sempre. A atmosfera deste bairro tem cheiro de tinta e poesia.

Aqui do alto vi muita gente boa chegar e sair. Fico no caminho do vai e vem cumprimentando todos que passam pela minha porta.

_Bom dia Seu Austregésio,

_Boa tarde, Dona Cecília...

_Boa noite, Dona Maria.

Diante dos meus olhos vi o rio carioca serpenteando e exibindo suas curvas. A rua seguiu o mesmo desenho tortuoso que as águas do rio fizeram a caminho do mar. Mais tarde, veio o bonde elétrico, mais eficiente que o velho burro, larguearam um tico a rua e pronto, quase me arrancaram o nariz!

Quando é dia de procissão, em homenagem ao santo, fica tudo parado na minha porta. Vão visitar a igreja, subir ao Cristo, rezar e eu pago os pecados daqui.

Mas voltando ao querido bruxo, ele já estava por essas bandas muito antes de mim. No chalé, um pouco mais adiante, nasceram os personagens de Quincas Borba, Esaú e Jacó, Memorial de Aires e Dom Casmurro entre tantos outros. Capitu e Bentinho se criaram na porta de casa, e volta e meia os vejo pelo bairro. Uma pena a casa do bruxo não existir mais. Minha doce amiga de ossos de barro, era um chalé lindo com olhos grandes, cabelo repartido ao meio e franjinha na testa. Já se foi também pra conta das perdas lamentáveis, mas que insistem em viver na nossa imaginação. A igreja onde casou Machado ainda está lá, ninguém pode entrar, mas eu sei que está lá.

Hoje, apesar das mazelas, sou a rainha do pedaço. Tenho mais de 100 anos e ainda seduzo quem passa. Não tenho olhos de ressaca, mas com calor e aconchego atravesso os tempos com o mesmo cheiro de pão quentinho que ainda sai de dentro de mim.

A ALMA DA CASA

Denise Lopes Nogueira

 

 

       Sobre o velho telhado muita água já passou. A chuva não segue mais o ritmo obediente das telhas e invade a casa. Construção abandonada, de proporções respeitáveis, longe do viço da mocidade, tem a elegância de uma matriarca severa. Mesmo devastada, restam pistas para um bom farejador sentar e ouvir as histórias que ela tem para contar. Pobre casa, sem chapéu, sem quase nada.

       Para conhecer a alma da casa é preciso silencio e entrega. O observador atento esquece as horas e desliza numa trilha suave, sem pressa. Percebe rápido a costura que divide duas vidas, dois tempos. A rigidez do primeiro logo se vê, é de pedra. Na flexibilidade do barro, está o segundo. Dói ver o punhal cravado no meio do peito. É uma cicatriz profunda, daquelas que marcam o antes e o depois. Sob os restos do telhado existe uma vegetação tomando posse do que não é seu nem de mais ninguém. Monta guarda, descendo bem ao lado da porta.

       As janelas batem com o vento. Parecem conversar. Querem abrir o coração e falar em segredo. Aos poucos, essa senhora, vai contando como nasceu, como cresceu, o quanto foi feliz e os sacrifícios que inevitavelmente teve que suportar. Uma, duas, três janelas emparedadas aqui, um vão de porta aberto ali, um guarda-corpo desaparecido. Lá se foi também, a marcação suave dos frisos embaixo das janelas. Para descobrir seu colorido, será preciso arranhar a pele, de-li-ca-da-men-te, até desfolhar uma a uma suas camadas. As cores estão todas ali, sobrepostas, à espera de mãos pacientes e habilidosas capazes de revelá-las.

       Mas e agora? Depois de uma boa conversa, de sentir o cheiro úmido das portas, de deslizar as mãos pelas paredes enquanto caminha, não dá mais para voltar atrás. O flerte já começou. Cabe agora, ao dedicado farejador, pedir respeitosamente licença para entrar.

      

 

 

 

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