Academia Niteroiense de Letras

 


 

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Pensarte

(Seção destinada à publicação de artigos e ensaios sobre literatura, cinema, teatro, dança, música, fotografia, artes plásticas)

carlos rosa

Organização: Carlos Rosa

carlosjrmoreira@globo.com

Hélio  Penna

Helio Penna

Contista nascido no Rio de Janeiro em 1961. Oriundo de família operária, morando sempre nas periferias da cidade, teve sua escrita marcada pela dura realidade social que vivenciou. Parte da sua vida foi dedicada à militância sindical, religiosa e social.

Começou a escrever seus contos na adolescência. Sua influencia literária vem dos autores como Herberto Sales, Jorge Medauar, Dalton Trevisan e Nelson Rodrigues.  Seus contos já foram publicados nas antologias Cadernos Negros, Presidiária, Contos da meia-noite e Clube de Leitura Icaraí, além dos blogs Literatura e Afrodescendência, Educação nos Terreiros e Instituto Awúre de Incentivo a Cultura.  Trabalha e reside na cidade do Rio de Janeiro.

 

ZÉ DAS VERDURAS

Foi uma bala perdida que pegou o Zé das Verduras. O Diabo estava solto. O aço dos bandidos e da policia atingiu a creche, a igreja, o ponto do bicho e o bar do Zito, onde a rapaziada do samba se reunia. Quem era de versar, não versava; até a força da imaginação se encolhia. O som dos tiros era uma música dos infernos que arrebentava os ouvidos. A Morte viajava ligeira e barulhenta a procura de uma vida qualquer.

Só depois do corre-corre, do se joga no chão, do pega pra capar é que se acudiu o Zé das Verduras, pois ninguém podia ser socorrido no meio dos balaços grossos que furavam paredes. Com Satanás livre comandando os seus demônios, quem enfrentou a praga foi Maria Antonia para salvar os filhos da Maria Isabel. As duas eram inimigas. Saiam na porrada por causa do mesmo homem. Maria Antonia não pensou em nada quando viu as crianças da outra em meio à desgraça. Catou os pretinhos da inimiga e com eles se abrigou debaixo da sua cama.

Colado no chão, o bicheiro Vantuil viu quando o Zé das Verduras tombou. Mas o velho filho da puta não se abrigou por quê, porra? O Zé estava gesticulando e gritando para o Chocolate, o eletricista do morro, que, pendurado no alto da escada, consertava os fios da casa da Rezadeira, atingidos em outro tiroteio. Zé das Verduras queria que Chocolate se protegesse.

Quando veio aquele silêncio amargo, aquela calma desconfiada, aquela paz triste é que se pode dar conta dos velhos, dos doentes, das crianças, do Chocolate, que passou mal na escada, e do Zé das Verduras que agora exigia vela e um lençol apenas.

O corpo ficou ali o dia todo. Talvez ele não quisesse ir embora, tão acostumado com o seu povo e a sua barraca.  O morro era a sua família. Ele não tinha ninguém e não acreditava que encontraria os seus parentes depois da morte como pregavam o Pastor e a Rezadeira, cada um ao seu jeito. Os moradores se revezavam acendendo as velas e arrumando o lençol que algum descuidado desarrumava, deixando o rosto preto do Zé das Verduras exposto ao sol quente.

Quando anoiteceu, apenas a Rezadeira, o Pastor, o Chocolate, a Maria Antonia e a Maria Isabel permaneceram na vigília e guarda do corpo. O morro estava na escuridão, os tiros atingiram o transformador. Só o Zé das Verduras tinha luz própria.

 

 

 

 

 

 

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