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Pensarte

(Seção destinada à publicação de artigos e ensaios sobre literatura, cinema, teatro, dança, música, fotografia, artes plásticas)

carlos rosa

Organização: Carlos Rosa

carlosjrmoreira@globo.com

 

 

Vinha tocando da Senador Dantas, apressado, e já me encontrava na praça Floriano. A reunião tinha sido ruim. Dia péssimo. País de mal a pior, preocupações e agora uma grande decepção. A gente acorda no vermelho e continua no vermelho, pois as notícias desanimam. É preciso contar com a sorte e fazer das tripas coração, além de muita reza. Espera-se sempre um milagre e, naquele momento eu sabia, ter êxito seria quase impossível. Estava eu como quem sente que partiu ou morreu.

            Vi-me, então, na praça Floriano, às três horas da tarde, esperando o trânsito para atravessar a Rio Branco. Pensei no Amarelinho... O que podia agora fazer? Mas vi também, pelo canto do olho, o Museu de Belas Artes. E fui empurrado para lá, sem me perceber atraído, deixando o Amarelinho para trás. Já na entrada, abrigado à sua sombra, livrava-me do calor ruim das ruas. Adentrei. Deixei-me levar, pensando não mais nos problemas, mas em tudo à volta, nas artes que iluminavam meus olhos.

            Deparei-me com o busto de Antinoo. Cerca de dois mil anos diante dos olhos. Um rosto adolescente, bonito, a basta cabeleira seria loira? Acho que não. Viera de terras de pessoas morenas. A paixão de Adriano...  Diante dele teria chorado o imperador? É possível... “Animula!”, teria sussurrado Adriano ao admirar o busto de Antinoo.

            E assim a minha pequena alma vagou no tempo. No terceiro andar examinei “Arrufos”. Um homem e uma mulher. Foi complicação das boas... O cara parece seguro, tem a seu favor todas as vantagens masculinas da época, mas sabe que ela pode fazer de seus dias um inferno. Acho que ele tentou melhorar a coisa, dando-lhe uma flor. Mas não adiantou muito, não. Beleza de clima criou Belmiro de Almeida!

            Vou seguindo mas não resisto a Pedro Américo. Paro e sento no banco para apreciar as hordas de guerreiros que se batem nos campos de Avaí. Ouve-se o fragor da batalha. Da imensa tela ressoam clarins, retinem os metais; estampidos, alarido de vozes, ordens desesperadas em português, em guarani, em espanhol... O odor da pólvora... Levanto-me. Ando mais e me deparo com as enigmáticas “Léa e Maura”. Talvez não fossem enigmáticas, fossem amigas de Guignard, sei lá. A mim parecem enigmáticas. Mineiras ou baianas. Prefiro baianas, embora devam mesmo ser mineiras.  Lembram-me mulheres de marinheiros. Dessas a esperar no porto com o vestido cada dia mais curto. Devo estar a imaginar bobagens... Vai que é gente importante lá do Guignard... Mas arte é isso. A gente viaja. E vou viajando por entre gente e paisagens, urbanas, campestres, marinhas.

            Aí, de repente, a vista ensolarada do “Morro do Cavalão” acaricia minhas retinas. Uma beleza de Grimm. E me lembro do velho e bom Paragó. Acho que, no fundo,  desejou recriar um “Grupo Grimm”, a pintar pelas manhãs marítimas de Niterói, da Ilha da Conceição... Tantos barcos, tanto mar...

            Perco-me nas imagens de Grimm, Pedro Américo, Antonio Parreiras, Garcia y Vasquez, Caron, Castagneto, França Jr... Ainda há o cheiro da tinta naquele terceiro andar do museu. O aroma das tintas e da terebintina, que são perfumes de ateliê.

            Fico até o museu fechar. Meus pensamentos percorrem as telas, se enlevam pela arte, conjecturam a lógica das técnicas. As artes se interligam. Telas buscam livros, livros remetem a filmes, filmes trazem músicas, músicas a lembrar telas, que trazem livros, que trazem filmes, que trazem telas... Beleza pura! Alegria de viver! Digo para mim mesmo quando as portas do museu se fecham às minhas costas. Para tudo há uma saída. Pelo menos uma última saída.      

 


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