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Pensarte

(Seção destinada à publicação de artigos e ensaios sobre literatura, cinema, teatro, dança, música, fotografia, artes plásticas)

carlos rosa

Organização: Carlos Rosa

carlosjrmoreira@globo.com

 

 

 

henrique chaudon

 


Henrique Augusto Chaudon, Niterói, 1955.

Estreou na poesia com o livro “Confissões a Baco & Outros poemas” em 1977; em 1982 publica “Vento”, em edição caseira e de poucos exemplares (esgotado); em 1994, também em edição caseira, lança “A terceira gaveta & poemas anteriores”(esgotado), com o qual participou do concurso Novos Talentos, promovido pela UFF/IBM, tendo compartilhado com Frederico Girauta o  primeiro lugar. Em 2005 publicou “Poemas”, uma seleção de poemas dos livros anteriores, acrescido de seis poemas inéditos, assinalando seu cinquentenário, pela editora Parthenon. Tem em preparo o livro “Algumas sílabas”, a ser lançado no final de 2017, para marcar os 40 anos de seu primeiro livro.

                Dois poemas seus foram traduzidos para o alemão por Markus Sahr e publicados no número especial da revista Die Horen (251), dedicada à literatura brasileira e organizada por Michi Strausfeld, lançada na Feira Internacional do Livro em Frankfurt, 2013; outro poema, também traduzido por Markus Sahr foi publicado na revista Ostragehege (76) em 2015.

 

Do ideal e do possível

                        Machado de Assis, em seu conto “Um homem célebre”, nos apresenta um drama que penso atormentar a muitos artistas. A narrativa machadiana focaliza a frustração de um compositor popular que, sem esforço, quase como quem respira, tira ao piano polcas leves e ligeiras. Tão logo publicadas, caem no gosto do público; mas seu desejo profundo é compor algo mais ‘subido’, mais ao nível de seus ídolos musicais: Mozart, Beethoven, Gluck e outros luzeiros de igual grandeza.

             Pestana (esse é o nome do nosso sofredor) porfia longas horas noturnas com o  piano, mas tudo o que dele extrai, por força da obstinação, é pífio, ou plágio, involuntário, de seus ídolos. Suas polcas, no entanto, brotam fluidas. Mas Pestana quase as desdenha; ele quer ‘a grande música’... Não basta a ele o sucesso de suas composições, executadas nos bailes e assobiadas cidade afora, e que lhe garantem o pão. Pestana almeja mais: entrar no Panteão dos Grandes e ser lembrado pelos séculos dos séculos. O sucesso junto a seus contemporâneos pouco significa: ele mira o futuro. Assim, de polca em polca, vai Pestana tocando a vida, até que uma febre perniciosa o liberta, por fim, e ele morre ‘ bem com o mundo, mal consigo mesmo’.

            Trazendo a reflexão sugerida por Machado para este texto: todos - em princípio – podem, em algum momento, decidir dedicar-se à arte, seja ela qual for. Porém, ninguém é capaz de decidir tornar-se um grande artista. Ademais, a valoração das artes (Artes Maiores, Artes Menores), assim como a valoração dos artistas, é algo absolutamente subjetivo e modifica-se ao longo do tempo, como nos tem mostrado a história da arte.

            Julgo que alguns artistas têm o talento e o gênio suficientes para realizar seu desejo e sua necessidade de expressão artística. E o que se espera do artista? Que nos confirme nossas crenças, gosto estético, nossa visão de mundo? Ele cria porque precisa criar; não está visando um determinado público. O artista cria algo a partir de tudo aquilo que o tocou, impregnou sua sensibilidade, e precisa fazer isso, dia após dia, ainda que sob condições adversas e talvez com fome.

             Mas, ao levar à sociedade o resultado de seu trabalho, de suas descobertas e perplexidades, é humano, demasiadamente humano, desejar receber alguma atenção, algum reconhecimento. Mais que isso, e antes, o artista quer poder viver de seu trabalho, para o seu trabalho, e como todos os viventes, precisa dar sustento ao corpo.

            Pestana conseguia, simultaneamente, sustentar-se e granjear popularidade com o seu trabalho.  Era, sem dúvida, um mestre na polca, apesar de si mesmo. Seu mal era ter um grande, um enorme desejo de compor melodias sublimes sem ter o gênio para tanto. Fico a imaginar quantos  Pestanas não existirão pelo mundo, ingratos e amargurados, em demanda de um Graal desde sempre inalcançável...   

            Henrique Chaudon, janeiro, 2017    

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