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MPB, um enfoque literário

lauro

Lauro Gomes de Araújo

Acadêmico titular da ANL, atual ocupante da Cadeira 45

 

      

A VOCÊ”, ATAULFO, A NOSSA HOMENAGEM

                                                                                               

As aspas, no título acima, indicam a primeira valsa composta por Ataulfo  e servem para, por essa forma, lembrar que ele não foi  só o grande sambista que “era feliz e não sabia” e que também “olhava os lírios do campo”. Ocorreu que a valsa “Boneca”, de Benedito Lacerda  e Aldo Cabral, estava prometida, por Aldo, a Carlos Galhardo, seu amigo, mas acabou sendo gravada por Sílvio Caldas, sem que o fato gerasse qualquer mágoa ou ressentimento ao “Rei da Valsa”. Este, por sua vez, completava o chamado grupo dos “Três Mosqueteiros”, com Roberto Martins, o próprio Ataulfo, sem esquecer o “quarto”, Alcebíades Barcelos, o “Bidê”. Sempre andavam juntos naquelas madrugadas boêmias e no roteiro pelos bares e cabarés da Lapa. Assim, Ataulfo prometeu a Galhardo uma valsa, que foi transformada em sucesso na voz romântica do saudoso cantor. Ataulfo também não “não sabia o quanto nos fazia felizes com  seus sambas. Elegante, educado, trazia no andar a ginga característica do andar caminhador de sua e a atender solidariamente às eventuais necessidades de vizinhos distantes, na região cafeeira de Miraí. Contava Roberto Martins que o compositor, cuja luta pela sobrevivência tinha sido árdua, distribuía as cédulas do seu dinheiro, agrupado por valores em diferentes bolsos da calça e do paletó, ficando as maiores (raras) na carneira do chapéu. A providência visava a coibir os pedidos dos “mordedores” sem maiores constrangimentos. Contudo, às vezes se enganava de bolso e ao dizer que não tinha a importância pedida, tirava do bolso a cédula errada para dizer que não tinha. Assim era Ataulfo, levado a ser cantor pelo simples fato de que ninguém acreditava no estrondoso sucesso de “Ai, que saudade da Amélia” e que, no ano seguinte, estava, como ele próprio disse ao parceiro Mário Lago, “outra vez na boca do povo, como menina que deu mau passo”, com “Atire a primeira pedra”, e que todo Rio cantou e continua cantando, ainda que a mídia não divulgue.

            O projeto Mesa de Botequim não pôde homenageá-lo, pois já havia partido, mas o fizemos na pessoa do filho, Ataulfo Alves Jr., que as recebeu em nome do pai, ao tempo em que relembrou seus vários e bonitos sucessos.

Sandro Rebel

Sandro Pereira Rebel

Acadêmico titular da ANL, atual ocupante da Cadeira 46

 

 

ATAULFO ALVES

                   Sandro Rebel

 

 

Bem merecedor de salves

em louvor do seu labor,

foi este o Ataulfo Alves,

cantor e compositor.

 

Apesar de ser mineiro,

que no interior nasceu,

foi no Rio de Janeiro

que o artista aconteceu.

 

Teve carreira brilhante,

com seu porte esguio, ereto,

foi um sambista elegante

e de gingado discreto.

 

Para um grupo de cantoras,

das quais fez se acompanhar,

deu fama, como as “pastoras”,

que guiou no seu cantar.

 

Você passa e eu acho graça,

fez com Carlos Imperial,

e o samba estourou na praça

de forma sensacional.

 

Tal como Infidelidade,

Errei, erramos, Pois é,

todas de alta qualidade,

antológicas até.

 

E Na cadência do samba

mostra de modo cabal

que no gênero ele é bamba,

chega mesmo a genial

 

Sempre bem cuidado assim,

no seu acervo figura,

tanto a bonita Errei sim,

quanto a Laranja madura.

 

Outra menção destacada

a ser registrada aqui

é para Mulata assanhada

e para a terna Mirai.

 

Primeira pedra atirar?

Há quem de amor não sofreu?

com tais temas a explorar

mais um “hit” ele colheu.

 

Vida da minha vida

é, feito é Leva meu samba,

mais canção bem-sucedida,

igual à Corda e caçamba.

 

Mas Amélia é, sem favor,

seu sucesso mais famoso,

um samba cujo valor

é deveras precioso.

 

Fez muitas outras canções

de caprichado quilate,

entre estas Mil corações

e Como a vida me bate.

 

E Amor de outono, A você,

Talento não tem idade,

O meu pranto ninguém vê

e O pavio da verdade.

 

Fez Um samba diferente,

Nego está se acabando,

A marcha para o oriente,

Zé da Zilda e Caminhando.

 

E Endereço, Eu não sabia,

Mais um samba popular,

Falei demais, Covardia,

e Eu não posso acreditar.

 

Fez Carnaval, Jubileu,

Pelo amor que eu tenho a ela,

O prazer é todo meu,

Fênix e Saudade dela.

 

E Rainha da beleza,

Se a saudade me apertar,

É hoje, Quanta tristeza

e A mulher de Seu Oscar.

 

Fez mais Batuca no chão,

Ironia, O que que há,

Cabe na palma da mão

e O vento que venta lá.

 

E Laura, No meu sertão,

É um quê que a gente tem,

Boêmio, O homem e o cão,

Sexta-feira e Gente bem.

 

E fez Cheque ao portador,

Fala Pedro, Amor perfeito,

A colombina do amor

e, ainda, Adhemar dá jeito.

 

E Seresta, Solitário,

Você nasceu para o mal,

O bonde de São Januário

A carta e Reta final.

 

E fez Mal agradecida,

Positivamente não,

Receita, Mulher fingida

e Tu és esta canção.

 

E Arrasta o pé, moçada,

Até breve, Faz como eu,

Fala mulato, Malvada

mais O duque não morreu.

 

Também fez Chorar pra que,

Mandinga, Papai não vai,

Mais amor para você

e Balança mas não cai.

 

E Ai, que dor, Não sou daqui,

Até ela, Nunca mais,

Ana, Calado venci

e O mais triste dos mortais.

 

E fez Vai na paz de Deus,

Meu drama, Pago pra ver,

A mulher dos sonhos meus,

Vai mesmo e Quando eu morrer.

 

E Castelo de Mangueira,

Vai baixar noutro terreiro,

e mais Morena faceira

e De janeiro a janeiro.

 

Fez Exaltação à cor,

Dizem, Lagoa morena,

A canção do nosso amor,

Protesto e Vai Madalena.

 

E Você é meu xodó,

Eu também sou general,

Me dá o meu paletó,

Quem bate e Dia final.

 

 

Cabe ainda aqui citar,

no bojo da obra sua,

Sonho, Fale quem falar,

Dá licença e Nessa rua.

 

Tal como cabe e convém

nesta listagem incluir

Juvenal, Sinto-me bem,

Capacho e Já sei sorrir.

 

Bem assim a citação

de Agradeça à sua amiga,

Fogueira no coração,

Fim de comédia e de Intriga.

 

Mas séria omissão comete

quem sua obra analisa

e Nem que chova canivete

nem ao menos memoriza.

 

Por igual, vale notar

que também são partes dela

Deixa o toró desabar,

Teus olhos e Ela, sempre ela.

 

Pra que haja poucas carências

neste rol, agora o aumento

lembrando Reminiscências,

Lenço branco e Meu lamento.

 

Mania da falecida

é outra composição

que, tal qual Alma perdida,

cabe nesta relação.

 

Qual nela hão também de estar

tanto Quem é que não sente

quanto É negócio casar

e Lar antigo igualmente.

 

Mais Bom crioulo e, por fim,

Mensageiro da saudade,

Vestiu saia, tá pra mim

Mal de raiz e É verdade.

 

Por fim, pois só esta lista

demonstra, à saciedade,

que, na música, esse artista

já tem a imortalidade.

 

Pois mesmo sendo somente

uma simples amostragem,

ela já deixa evidente

quão rica é sua bagagem.

 

Ataulfo é, pois, de fato,

para o nosso musical,

como um seu fiel retrato,

patrimônio nacional.

 

***

 

 

OBS. – Nos versos acima, as palavras grafadas em itálico reproduzem literalmente, ou sugerem claramente, títulos de composições de Ataulfo Alves.

 

***

 

         

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