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De outros cantos

 

(Seção destinada à publicação de textos de autores não residentes em Niterói). 

marcelo abreu

Marcelo Abreu

 

Natural do município fluminense de Conceição de Macabu. Formado em História pela Faculdade de Filosofia de Campos em 1992, trabalha nas redes pública e particular de ensino fundamental, médio e superior das cidades de Macaé e Conceição de Macabu, desde então. Especializado em Educação pela PUC-RIO em 1995, concluiu mestrado em Ciências da Educação, na Universidad Autónoma de Asunción, Paraguay, local onde hoje desenvolve seu doutorado, ambos focados na História da Educação, com estudos sobre a Educação Jesuítica nas Aldeias Indígenas do Rio de Janeiro. Além de professor, com dezenas de orientações de teses de conclusão de curso e dissertações de pós-graduação, também fez trabalhos paralelos, de pesquisa e assessoria histórica, para peças de teatro, programas de TV, filmes e, até mesmo, temas de escolas de samba. Pesquisador, tem mais de duas dezenas de trabalhos sobre História da região Norte Fluminense, publicados em revistas comerciais e científicas, assim como em livros livros.

 

O Quilombo do Carukango – a lenda se tornando verdade

 

Publicado pela última vez em 1901, o livro Evocações – Crimes Célebres em Macahé, de Antão de Vasconcellos, narrava vários casos curiosos, verídicos, segundo o livro, envolvendo criminosos que marcaram época na região do antigo município de Macaé. Dentre os muitos casos, chama atenção o do Quilombo do Carukango, grande comunidade quilombola, liderada por um feiticeiro moçambicano, que deu nome ao mesmo.

Vasconcellos é a principal fonte literária sobre Carukango e seu quilombo, que teriam existido na primeira metade do século XIX, ocupando uma área extensa, hoje dividida entre Conceição de Macabu e Macaé, mas que, naqueles tempos, já que Macabu era uma freguesia macaense, pertencente ao segundo município.

Além desse livro, há muita tradição oral envolvida no caso, quase toda, de origem macabuense, ou seja, produzida no interior do município de Conceição de Macabu. Essas oralidades, por exemplo, atuaram na toponímia local, contribuindo para que uma parte do interior daquele pequeno município fosse tratada como região do Carukango, existindo até um rio e uma bela cachoeira com esse nome.

Mas voltemos ao livro de Antão de Vasconcellos. Segundo o autor, o quilombo formou-se após uma violenta rebelião de escravos seguida de dezenas de fugitivos. A essa rebelião seguiram-se outras, provocando êxodo dos fazendeiros em direção às cidades, pois num desses ataques – as rebeliões eram iniciadas com ataques dos quilombolas – um fazendeiro foi atacado e morto.

Alarmados, conta Vasconcellos, os munícipes pediram providências ao governo da província, que enviou uma milícia comandada pelo coronel Antônio Antão Coelho de Vasconcellos, avô do escritor, que se fortaleceu com adesão de vários munícipes - a essa altura, graças a um ataque frustrado de Carukango à fazenda de seu ex-dono, já se sabia quem estava por trás de tudo, assim como uma localização aproximada do reduto quilombola.

A expedição partiu, adentrou as florestas, subiu as serras, percorreu quilômetros sem sucesso e, segundo o autor, só localizou o quilombo depois de capturar um de seus membros e obrigá-lo a falar, sob tortura. O local, segundo o relato, era um platô, cercado de florestas, mas com muitas plantações e uma casa ao centro, que, de forma alguma, poderia abrigar tantos quilombolas – estimados em 200 pessoas.

Houve combate, tiroteio, mortes, até que o líder do quilombo, o Carukango, saiu do interior da casa mencionando render-se. Segundo o livro, o mencionado chefe quilombola surgiu trajando uma roupa sacerdotal, trazendo ao peito um enorme crucifixo, o que provocou um cessar-fogo imediato por parte dos milicianos que o atacavam.

Nesse momento, narra Antão de Vasconcellos, Carukango aproximou-se do grupo de soldados, foi em direção a Francisco Gomes Pinto, único sobrevivente da família a qual pertencera. Aproximando-se do rapaz, Carukango sacou uma pistola debaixo das vestes sacerdotais e, fulminantemente, disparou e matou Chico Pinto, exterminando assim, toda a família.

Imediatamente, os demais soldados caíram sobre Carukango, arrancaram suas vestes e adornos, trucidaram-no, lincharam-no. Ainda enfurecidos, atacaram a casa, matando outras dezenas de quilombolas e, descobrindo que a pequena residência disfarçava a entrada de um sistema de grutas, onde muitos se escondiam. Todos os homens do quilombo foram mortos, ou, se conseguiam fugir, se atiravam de um abismo próximo, suicidando-se.

Antão completa suas narrativas, dando conta que as mulheres foram poupadas e que o corpo de Carukango foi repartido em várias partes, sendo distribuído em áreas estratégicas, por exemplo, a cabeça foi exposta na importante estrada do Farumbongo.

Assim acaba a narrativa de Antão de Vasconcellos. Narrativa com aspectos tão estranhos que parecem lenda, de forma que durante décadas discutiu-se muito a veracidade do quilombo. A favor da realidade, estava a tradição oral, rica em relatos sobre Carukango. A toponímia regional e a geografia com vários platôs (propícios a uma unidade quilombola), também compunham os argumentos daqueles que defendiam a existência de um quilombo.

Lenda ou realidade? A discussão ganhou contornos científicos no século XXI, quando várias descobertas documentais e materiais foram certificadas por especialistas. Por exemplo, o documento de registro paroquial de terras da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Macabu, de 1857, onde se lê: “Lúcio Pereira da Rosa é possuidor de uma situação no local onde foi o quilombo”. As terras de Lúcio Pereira, um pequeno sítio, localizava-se exatamente onde a tradição oral sempre afirmara: a região do Carukango, localidade de Conceição de Macabu, na fronteira com Macaé.

Ao primeiro indício documental, juntou-se uma descoberta magnífica, realizada por um madeireiro na região do Carukango\Conceição de Macabu: uma ponta de lança, de uns 50cm, confeccionada em bronze, que, segundo a Universidade de São Paulo (USP), “não se pode afirmar que foi feita na África, mas, com certeza, é de inspiração africana, sugerindo a metalurgia basongue.” Ainda segundo a USP, “a mesma data das primeiras décadas do século XIX”.

Considerando a origem africana e o local da descoberta, a lança já seria um objeto contundente. Entretanto, outro fato foi ainda mais certeiro: os basongue são originais de Moçambique e, Carukango é descrito como moçambicano.

As novidades continuaram em 2005, quando um registro de óbitos de dois soldados, datado de 1831, foi encontrado na Paróquia de Nossa Senhora das Neves e Santa Rita, interior de Macaé, fronteira com a região do Carukango. O registro falava de um ataque a um quilombo ao pé do rio Macabu, onde o líder saiu vestindo trajes sacerdotais e portando um crucifixo. Para concluir, o mesmo foi linchado e seus pedaços espalhados pela região.

O registro de óbitos é uma prova muito concreta e se complementa com outra mais forte ainda: o escravo chamava-se Antônio Moçambique.

Moçambique, trajes sacerdotais, linchamento, localização, lança, registro de terras, enfim, o quilombo ao pé do rio Macabu, era mais do que suficiente para concluir a veracidade dos fatos narrados por Vasconcellos e nos dar conta de que o quilombo realmente existiu.

Em 2012, no apagar das luzes da Coordenadoria Macaé 200 Anos, eu protagonizei a última descoberta: três autos de devassa, de 1832, onde a polícia de Macaé investigava os ataques de quilombolas e assassinatos no interior daquele município. Os autos, ainda não completamente paleografados (por falta de apoio institucional), nos confirmam os nomes dos quilombolas, incluindo outro moçambicano, chamado Francisco, e confirma os ataques às fazendas e as mortes de fazendeiros.

Podemos dizer que existiu um grande quilombo na região, cujo final, cinematográfico, protagonizado por um líder de origem moçambicana, foi completamente confirmado. Podemos afirmar a localização, o ataque, enfim, existiu quase tudo que Antão de Vasconcellos, na sua obra prima, Evocações – Crimes Célebres em Macahé, afirmou.

Mas ainda não temos o nome Carukango, que existe na tradição oral, na toponímia, no livro do Antão. Mas, se a sorte nos sorrir no século XXI, quem sabe o Carukango não nos aguarda em algum documento paroquial, algum processo, ou, quem sabe numa simples carta para ser definitivamente entronado como líder desse quilombo?

        

         

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