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Suely Engelhard 

Psicóloga, analista junguiana, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA) filiada à International Association for Analytical Psychology (IAAP), fundadora, docente e supervisora do Instituto Formador Centro de Atendimento e Aperfeiçoamento em Psicologia (CAAPSY), terapeuta de família e casal (formação Núcleo Pesquisas), associada titular da Associação de Terapia Familiar do Rio de Janeiro (ATF-RJ).

 suely engelhard

Suely Engelhard

suelyengelhard@yahoo.com

                      

A flecha de Eros não se preocupa em acertar o que é possível, isto é, o amor que estaria cabível de ocorrer, dentro dos valores afetivo-culturais de uma sociedade. Em muitas situações os amores impossíveis são avivados; isto é um fenômeno arquetípico, contado em diferentes mitos de diferentes culturas, cantado em canções, registrado em películas, escrito em prosa e verso e presente na vida.

No filme Diário de uma Paixão isso se dá com Allie e Noah, um namoro de férias de verão que se transforma em forte paixão e que sofre a retaliação dos pais de Allie, cuja situação familiar, sócio econômico e cultural é superior a de Noah.

Aparentemente é por esta questão que eles são afastados um do outro, mas há mais coisa oculta, para que a mãe de Allie faça pressão tão intensa junto ao marido para que este namoro seja rompido precipitadamente, com o retorno da família à sua casa na cidade. Mas isso, só muito a frente vai ser revelado. 

Precisamos nos perguntar: Como se dá a alquimia daquilo que se atrai, mas não pode permanecer junto? Serão encontros sempre fadados ao trágico e à fatalidade? Haverá uma saída resiliente para essas atrações?

Ter criatividade e resiliência não é igual a se atingir o lugar comum, a acomodação aos padrões conhecidos e socialmente aceitos.  É sim se conseguir uma resolução onde o amor se torne possível, a força de vida prevaleça em uma equação inesperada, fantástica e surpreendente.

Os jovens Allie e Noah, quando se conhecem, estão no momento do ciclo vital da adolescência em sua história pessoal e familiar. Já são adolescentes a caminho de se tornarem jovens adultos.

Ele é um jovem local, trabalha com carpintaria, filho único, órfão de mãe e que tem um pai muito afetivo, pouco preso às convenções sociais (por exemplo: embora seja noite ele convida Allie e Noah para comer panquecas, uma refeição típica do desjejum nos USA) e que curou a gagueira de Noah, fazendo-o recitar poemas, hábito este que foi perpetuado: ler poemas um para o outro.

Allie por sua vez é uma visitante em férias. Moça da cidade grande tem sua vida ocupada por um milhão de atividades, numa agenda repleta de obrigações a cumprir e que em sua primeira conversa com Noah revela, para atender aos desejos de seus pais, embora sua verdadeira paixão, a pintura, não tenha espaço para ocorrer.

Até esse primeiro encontro Allie pensava ser uma pessoa livre, até quando foi questionada por Noah de porque teria que fazer tantas coisas para atender aos outros. É também surpreendida quando ele a convida a se deitarem na rua para verem as luzes do semáforo mudar (tal como fazia com seu pai) e a dançarem, com ele cantarolando em seu ouvido. Neste momento surge algo entre os dois que fará toda a diferença nesta relação de amor: a verdadeira amizade.

Segundo Rabin (1996) “ser íntimo é conhecer o outro, e uma íntima amizade se baseia numa profunda empatia com seu amigo.” (RABIN, 1996 pg 60) Na relação que eles criaram o que os torna únicos é que ambos se tornaram o “melhor amigo” um do outro. Ambos estabeleceram uma relação de confiança mútua e por isso não tinham medo das diferenças que existia entre seus mundos.

Ele pode contar a ela de seus sonhos. Levou-a para conhecer a Colônia Windsor, uma casa que foi construída em 1772 e onde seu proprietário pediu nos degraus da escada a mão de sua mulher em casamento. É uma casa abandonada, que ele deseja comprar e reconstruir, e que ela lhe pede que a pinte de branco com janelas em azul, que construa um quarto onde ela possa pintar e uma varanda em seu entorno, para que possam tomar chá e ver o por do sol.

Allie e Noah formam um casal que realmente se compreende, e naturalmente deseja que os interesses individuais de cada um sejam atendidos. Buscam ajudar um ao outro a realizar seus intentos; afinal para Allie sair com ele da primeira vez Noah põe sua vida em risco na roda gigante de um parque, e ela, sua dignidade, “pedindo” para sair com ele, que só assim sai do risco em que se encontrava: pendurado por uma das mãos lá nas alturas.

Desde o início de encontro afetivo esse casal empodera cada um dos dois indivíduos da díade, com ambos se tornando responsáveis por suas necessidades próprias como pela necessidade do casal que formam. Não formam um jogo de papéis polarizados de vítima e algoz. O crescimento de um empodera o do outro e o de ambos fortalece o laço de amor que os une.

Só podemos conhecer a realidade do arquétipo da anima e do animus, que nos impulsiona na busca do parceiro afetivo, na relação com o indivíduo oposto a nosso gênero, porque só nesta relação à projeção será realizada com eficiência. Quando tomamos consciência deste fenômeno, ocorre no homem uma tríade: o sujeito masculino, o sujeito feminino, e a anima transcendente. Na mulher, se dá o mesmo: o sujeito feminino, o sujeito masculino e o animus transcendente. Por ai inicia-se um novo dinamismo no desenvolvimento da consciência humana: o dinamismo da alteridade.

Ao inaugurar este dinamismo no desenvolvimento da personalidade os arquétipos do animus, na mulher e da anima, no homem, quando, estão menos inconscientes, menos contaminados de emoções impregnadas de afetos inconscientes, de aspectos sombrios, tornam-se aliados poderosos para que a alquimia dos amores impossíveis encontre uma solução criativa. Já não se dá mais uma identificação do ego com eles e nem uma submissão inconsciente a eles, o que leva a atrações fatais.

O dinamismo de alteridade propicia que se expressem as diferenças e as semelhanças do eu e do outro, tornando possível que toda a realidade seja vivenciada com liberdade. No seu aspecto sombrio, o seu potencial se caricaturiza, tornando, por exemplo, democracia em demagogia e corrupção, justiça em protecionismo e parcialidades, amores impossíveis em destrutividade e dilareção humana.

Por seu desapego à sensualidade e ao poder é que este dinamismo que explica a sabedoria do paradoxo e é capaz de lidar criativamente com o metafórico é reconhecido como essencial para que as descobertas científicas ocorram.

A paixão é o primeiro sinal de que a força anímica se projetou sobre o objeto amado, desejado. Neste momento há a entrega ao outro, onde a complementaridade perfeita acontece. “Eu sem você, não tenho por que”... Impulsionados pela inconsciência amorosa os apaixonados tornam-se fusionados, necessitam do outro para viver e se equilibrar. “Porque sem você, não sei nem chorar, sou chama sem luz, jardim sem luar, luar sem amor, amor sem se dar...” (Samba em Prelúdio – Vinicius de Moraes e Baden Powell)

Passado esses primeiros tempos, da paixão sem consciência, o encantamento começa a se desfazer e cada um passa a se dar conta de que o outro não é simplesmente o seu desejo, nem o sonho ou ideal em sua cabeça. O outro é também uma pessoa, com ideias e sonhos próprios, e com questões sombrias mal resolvidas em sua identidade. Se isso não se der morre-se de paixão, fica-se prisioneiro da inconsciência de si mesmo.

A intimidade da relação a dois expõe de modo muito claro aquilo que cada um se tornou, até o momento deste encontro. Isto que parece ser “sua verdade absoluta” fica palpável e então revelações acontecem.

 A experiência do encontro e da alquimia do amor entre eu-outro se transforma, na medida em que rituais de renovação se dão. Muitos destes rituais advêm das vivências simbólicas das relações de amor a dois com as quais se conviveu e recebeu como modelo. E é ai então que Eros pode ser vivido como amor ao que o outro realmente é acontecendo à interação criativa dos opostos.

Allie vai descobrir que sua mãe tal como ela também jovem se apaixonou por um local e que ao tentar fugir com ele para viver uma paixão impossível, foi pega pela polícia, a mando de seu avô. Porém desde então em todas as férias que passam no lugar, sua mãe passa onde ele trabalha, numa pedreira, para vê-lo de longe.

Allie então entende que a cumplicidade deste amor impossível de sua mãe é a pedra de toque, a poção alquimicamente perfeita, que leva o mundo a também se alimentar de preciosos arranjos sutis.

Quando animicamente a alteridade se impõe na orientação da relação ego-Self o que acontece é que o encontro de amor será guiado pela aceitação e compreensão mútua das diferenças, limitações e possibilidades, de cada parceiro em sua dinâmica vital. Este caminho leva à expansão da consciência cuja busca maior se dá em viver o grande Sim e o absoluto Não da vida. Se chegarmos a querer conscientemente o Sim e pelo menos suportar o Não, diz Jung, “já é uma enorme conquista.” (IBID, 51§87)

Nossos protagonistas tiveram que enfrentar e ultrapassar muitos obstáculos até poderem realmente ficar juntos. Tiveram que ultrapassar as mentiras da mãe de Allie (que não lhe entregava as cartas que durante um ano Noah lhe enviava), uma guerra para a qual Noah foi e poderia ter morrido, o noivado de Allie e seu quase casamento (ao experimentar seu vestido de noiva levam um jornal para ela ler a noticia de seu casamento, onde vários figurões da política e celebridades compareceriam, e onde, sincronicamente, ela vê publicada a reconstrução da Colônia Windsor com Noah frente a ela, pintada de branco e azul como ele desejava e com o avarandado que ela lhe pedira que fizesse).

Na escolha da pessoa como parceira afetiva, na identificação e discernimento dos aspectos inconscientes dos sentimentos, a força anímica tem participação positiva sendo guia e mediadora entre o mundo interno e a totalidade psíquica, entre o ego e o Self. A identificação e coerência do eu se mantém, mas o indivíduo se abre respeitosamente para o outro, já que reconhece a necessidade que dele tem, para se complementar e para preservar sua vivência de totalidade.

A Sincronicidade é aqui o princípio de orientação: um principio não causal de conexão entre fatos, que podem ser ou não coincidentes em tempo e espaço, mas que têm sempre conexões psicológicas significativas. A vivência sincronística se dá quando a realidade interna e externa se inter-relacionam conscientemente numa interseção. E foi justamente a partir desta experiência de sincronicidade que Allie pede um tempo em relação ao casamento, para por em ordem a desordem em que se encontrava, e parte para reencontrar Noah e conseguir ajustar suas diferenças.

A descoberta capital de Jung é o processo de individuação, a união mística que integra os opostos com o eu procurando ter consciência deste fenômeno. Neste caminho, quando transpomos o limiar de nossos aspectos sombrios e nos tornamos capazes de reconhecer o nosso pior e nos revelarmos com humildade a nós mesmos, a impulsão de nossa contraparte anímica nos instiga a não permanecermos prisioneiros dos códigos sociais, do status quo vigente.  Passamos a ser fiéis ao nosso processo de individuação, mesmo que isto signifique romper e se opor ao que o coletivo preconiza, sem, entretanto deixar de reconhecer sua relevância. Abre-se um canal para que as manifestações do Self cheguem de modo consciente ao ego do indivíduo. Dá-se a coniunctio, o casamento de opostos, e o eu então se torna capaz de compreender os significados e sentidos destas manifestações.

Em função da estruturação de identidade já vivenciada, o ego já pode transcender os dinamismos parentais, estabelecendo com o Self uma vivência criativa, onde as polaridades dos símbolos no eixo ego-Self serão absorvidas pela consciência de forma dialética.

O ego se torna capaz de perceber que existe uma dualidade em cada polo do símbolo e de se relacionar com eles dialeticamente – vejo a minha sombra e a do outro e posso inter-relacionar eu - outro significativamente, empatizando e imaginando trocas de posição com ele.

O confronto de opostos torna-se algo criativo.

É este processo vivido por ambos na construção de sua identidade e relação que torna nosso casal protagonista absolutamente parceiros e grandes amigos íntimos, e que desafiados ao final da vida em lidar com a doença de Allie, a demência senil, e o grande infarto de Noah, os torna mais unidos e cúmplices, para finalmente por esse amor, morrer juntos.

A energia psicológica tem exigências próprias a serem satisfeitas, e para tanto há que se estabelecer um fluxo. Este fluxo tem que atender a um fluxo natural para que a vida se dê. Jung pontua:

... considerando o destino de certas personalidades dotadas de grande força de vontade, é um erro fundamental querer submeter seu próprio destino à sua vontade, a qualquer preço. (Jung 1978, 41§72).

Na física há o conceito de resiliência que é usado para o material capaz de voltar a seu estado natural após ter sofrido alguma forma de pressão. As ciências humanas utilizam este conceito para qualificar a capacidade de um indivíduo em possuir uma conduta sadia num ambiente desvairado, ou seja, a capacidade de se sobrepor e se construir positivamente frente às adversidades. A psicologia, o explica como a capacidade do indivíduo lidar com problemas, superá-los ou até se deixar transformar por adversidades, dando um realce fundamental a importância das relações familiares. O resiliente é aquele capaz de se recuperar e se moldar a cada obstáculo situacional vivido.

Portanto, resilientemente, os socialmente impedidos de uma união, não se impedem de no íntimo de suas almas, estarem em comum acordo amoroso e diálogo permanente, em uma ciranda de criatividade e de vida, nesta experiência impar de confrontar opostos.

Conservam-se os antigos valores, que serão acrescidos do reconhecimento e aceitação de seus contrários.

A integração desses símbolos segundo Jung:

...consiste num ato individual de realização, compreensão e valoração moral. Trata-se de uma tarefa extremamente difícil que exige um alto grau de responsabilidade ética. Somente de poucos indivíduos pode-se esperar a capacidade para um tal desempenho, e esses não são absolutamente os líderes políticos mas os líderes morais da humanidade. A preservação e o desenvolvimento da civilização dependem desses homens singulares... (Jung 1988:42§451)

Com isso se possibilita que a existência humana tenha inúmeras poções de resolução e inventividade já que não existem fórmulas mágicas nem verdades eternas a serem aplicadas para resolver os fenômenos tencionais. E isso é compreendido quando os filhos querem que Noah vá embora da clínica, pois a mãe não os reconhece, nem a seus netos, e nem ao próprio Noah e ele lhes diz: “Escutem filhos, não posso ir. É a minha amada que está aqui. Não vou abandoná-la. Aqui é agora a minha casa. A mãe de vocês é o meu lar.”

 

 

Referências Bibliográficas:

JUNG, C G. (1978) Psicologia do Inconsciente. OC VII/1. Petrópolis: Vozes.                     (1988) Aspectos do Drama Contemporâneo. OC X/ 2.    Petrópolis: Vozes.

RABIN, C. (1996) Equal Partners – Good Friends; empowering couple through therapy New York: Routledge.

 

Filme                   Diário de uma Paixão

Lançamento

13 de agosto de 2004

Dirigido por

Nick Cassavetes

Atores

Ryan GoslingRachel McAdamsJames Garner, Gena Rowlands  e outros

Gênero

Drama, Romance

Nacionalidade

EUA

 

 

 

         

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