Resenha

Curriculum Afetivo

Jordão Pablo de Pão

 

Gracinda Rosa nos traz seu Pequenos Amores (Ed. Autora, 2005) sob a égide de uma vida vivida em um tom que flagra em diversos momentos a menina ingênua ainda hoje preservada. Em um tom confessional, ritmado pelas lembranças ficcionalizadas de seus amores que não tiveram pleno sucesso quanto à reciprocidade, a autora entoa com lirismo e progressiva maturação o modo como o sentimento amoroso se faz no ser humano.

Trata-se de uma antologia de contos memorialísticos em que se focaliza o processo da paixão nas esferas psicológica e atitudinal. A mocinha Gracinda conduz o leitor moderno em uma contação que mescla o lirismo do encantamento com o estranhamento pela ingenuidade da/s voz/es poética/s. A perspectiva interna faz com que grande parte do público leitor crie uma empatia pela moça de uma sociedade brasileira ainda muito pudica oficialmente.

Entender que a analogia entre escritora e voz narrativa excede o achismo e se valida mesmo antes do sumário: “Esta é uma obra de ficção, inspirada algumas vezes em fatos da realidade”. Em seguida, assina Gracinda Rosa. Franca e simples, harmônica. Com delicadeza, acompanhamos vozes poéticas (ou a voz poética, dada a continuidade explícita entre as narradoras dos contos) nos descaminhos que a emoção, como pulso, brota. Progressivamente, o leitor, como átomo de compartilhamento da experiência narrada, aproxima-se da voz e do texto como construto. Gracinda nos faz revisitar certo fluxo de consciência que ganha corpo com as vivências dos amores anteriores, o que acaba por gerar empatia em seu leitor.

Outrossim, o livro presta tributo aos insucessos amorosos a partir de uma perspectiva que qualifica a experiência. Não são as perdas que motivam a interpretação da autora se um memorialístico, da voz poética se um ficcional. Os homens que habitaram o sentimento da voz de ingênua menina encaminharam sua percepção de mundo junto a tantos outros fatores que a formaram. O leitor tem em mãos uma espécie de relicário do amor próprio ou um manual indireto sobre a sobrevivência ao sempre intempestuoso curriculum amoroso. Diz ela em um dos causos: “Com aquele pequeno amor, descobri que meu coração era capaz de abrigar esse tipo de sentimento, que passei a cultivar como essencial para que minha alma vivesse em harmonia com o mundo”. Nós também estamos na busca de entendermos essa magia, mestra.