CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE CELSO FURTADO DE MENDONÇA (1919 - 2019)

 

A figura ilustre do advogado e poeta Celso Furtado de Mendonça foi muito bem descrita, com detalhes emotivos, pelo acadêmico Marco Américo Lucchesi quando do painel da saudade em homenagem à pessoa que ora reverencio. Não tive, infelizmente, relações pessoais com meu antecessor. De seu nome, contudo, tive conhecimento em 1963 pois integrava a antologia 37 poetas fluminenses, que, no dizer de Lyad de Almeida, era apenas uma coleção de trabalhos de poetas nascidos ou radicados na Velha Província; era o caso de Celso Furtado de Mendonça. De tal livro é seu poema “À Noite”, cujo texto é o seguinte: “À noite, / em noite fria / ou noite de estival janeiro. / No silêncio da noite, / no magnífico silêncio do mundo, quando a lua caminhar pelas estradas do céu / e o céu for uma imensidade negra / - cintilante de estrelas numa marcha magnífica de luz. / Homem, contempla o infinito! / Fita o Universo! Ajoelha-te, / Pasma! / Adora! / Deus está falando / pela voz universal dos astros”. Uma observação faço hoje: tantos anos depois de escrever aquele poema, suas indagações e perplexidades sobre o mistério da vida, sobre o infinito, sobre Deus enfim, continuaram as mesmas e calcadas na mesma fé, na crença irremorrível nos caminhos da Eternidade; tanto quanto o sentimento de amor ao semelhante, inspirado em Cristo.

Gilson Rolim

Discurso de posse na ANL, 15.09.2004

 

 

Os Que Não Vieram e Os Equivocados & Outros Poemas são duas obras poéticas calcadas num sentimentalismo puro de amor a suas Minas Gerais de montanhas ferrosas, barrancos manando ouro e grupiaras lavadas com esmero nas turbulentas águas dos seus pitorescos riachos e rios caudalosos. Em outra faceta, sentimos neles, a ternura e a crença no bem, no amor e assim, canta com os pássaros, a beleza da lua, do sol, das estrelas, das borboletas de vôos leves no no céu límpido azulado ou nublado sombreando matas e terras. Celso Furtado de Mendonça faz seu “eu” descer pela pena e gravar no papiro todo o seu sentimento puro na transparência de uma alma generosa e boa. Seus poemas extrapolam a maneira apaixonada de ver o belo, quando se centraliza nas belezas e tradições da sua “Gerais”. Soterrado na saudade do seu portentoso Estado, sonha com o trem, aves coloridas, caminhos e animais com cincerros presos ao pescoço tocando a “música do ouro”. Evoca bravos mineiros, quando seus versos lembram esmeraldas, diamantes, manganês, ferro, tório, berilo e topázios, e atônito, pergunta: “Para onde correm os rios?” e “A quem pertencem as montanhas?” certamente, em protesto pela má divisão das imensas riquezas, quando lhe aflora o todo bom de que Deus o fez. Habituei-me a admirá-lo pela voz mansa de Mineiro cauteloso e cheio de experiências, no andar tranquilo e olhar percuciente transferindo confiança. E bom, que essas virtudes estão nos seus livros e estarão nos próximos vindouros.

Herval de Souza Tavares

Os Equivocados & Outros Poemas, 3ed - 1998, p.133-4

 

 

 

 

 

 

LAMENTAÇÕES EM TORNO DAS TORRES E DA ARCA

 

I

 

O Padre mudou a torre da igreja.

Mas o Padre não entendia de igrejas.

Se entendesse, não teria mudado a torre da igreja.

O Padre, mudando a torre da igreja,

Perturbou a harmonia da igreja.

 

O operário disse ao Padre

Que a igreja foi feita para ser assim como era até o fim.

Mas o Padre não acreditava em operários e sorriu.

A igreja não podia ser modificada.

Todos sabiam disto.

Menos o Padre.

 

II

 

O Padre vendeu a arca da igreja barroca

E comprou um Volkswagen.

O povo ficou espantado.

 

O Volks caiu no Rio,

O Rio engoliu o Padre,

O Padre saiu do Rio,

O Rio cuspiu o Padre.

O povo ficou espantado.

O Padre não tem culpa.

Ele pensa que é dono da igreja

 

que é dono do barroco,

que é dono dos santos e dos oragos,

que é dono da crença e dos devotos.

 

Quer brincar com o Volkswagen.

Quer mudar as torres da igreja.

Quer desfazer o campanário.

Quer vender a arca.

 

Enquanto isto, muitos já passaram.

Outros estão passando.

E tudo está se transfigurando.

Celso Furtado de Mendonça

 

MINHA MADRUGADA

 

Minha madrugada

Foi a madrugada de Minas.

 

Tinha o aroma, o perfume

O bulício, os murmúrios

Os silêncios

E as cores

De todas as madrugadas

Que me vêm acompanhando pela vida

Ou das madrugadas de todos os demais.

 

Mas a minha madrugada

Foi a madrugada de Minas...

Celso Furtado de Mendonça

 

 

A MONJA

 

Ah, Senhor!

Hoje a monja sorriu

Porque sentiu

A carícia do Teu sorriso

No desabrochar de uma flor!

Celso Furtado de Mendonça

 

 

EM ITAIPU

 

Ela quis ir a Itaipu

Para ver o vôo dos gaviões

Que vêm à tarde.

Para assistir a chegada dos bandos de marrequinhas

Que vêm pousar sobre as águas.

 

Naquele dia não vieram os gaviões

Nem as marrequinhas.

 

Ela, todavia, encantava-se com a exuberância do pôr do Sol.

Com o reflexo da luz nas águas da Lagoa.

Naquela tarde, Ela é que foi todo o encantamento

Com sua alegria, seu sorriso,

Seus cabelos e seu vestido batidos pelo vento...

Celso Furtado de Mendonça